A castração (ou esterilização cirúrgica) é um dos procedimentos mais realizados na medicina veterinária de pequenos animais. Apesar de ser considerada segura e rotineira, ela provoca alterações importantes na saúde e no comportamento de cães e gatos, que precisam ser entendidas pelos tutores.
Nos últimos anos, surgiram novas pesquisas e diretrizes internacionais que reforçam um ponto essencial: a decisão de castrar deve ser individualizada, levando em conta espécie, raça, porte, idade, histórico de saúde e estilo de vida, sempre em conversa com o médico-veterinário. (WSAVA)

O que é castração?
Em termos simples, castração é a remoção cirúrgica das gônadas:
- Machos: retirada dos testículos (orquiectomia).
- Fêmeas: retirada dos ovários, com ou sem o útero (ovariectomia ou ovariohisterectomia). (Medicina de Abrigos Brasil)
Esses órgãos produzem hormônios sexuais (principalmente estrogênio, progesterona e testosterona). Ao removê-los, o animal fica estéril e há grande redução desses hormônios circulando no organismo – o que explica boa parte dos efeitos em saúde e comportamento.
Principais benefícios da castração para a saúde
1. Prevenção de doenças do aparelho reprodutor
Vários estudos e diretrizes de entidades como WSAVA (Associação Mundial de Clínicos de Pequenos Animais) e AAHA (Associação Americana de Hospitais Veterinários) indicam que a castração reduz ou elimina alguns problemas importantes: (WSAVA)
Em fêmeas (cadelas e gatas):
- Piometra: infecção grave do útero, muito comum em cadelas não castradas de meia-idade e idosas, que frequentemente requer cirurgia de emergência e pode ser fatal.
- Doenças ovarianas e uterinas (cistos, tumores, hiperplasias).
Em machos (cães e gatos):
- Eliminação do risco de tumor testicular.
- Redução importante de problemas prostáticos em cães, como hiperplasia prostática benigna e algumas prostatites. (Wiley Online Library)
2. Impacto sobre tumores mamários em fêmeas
Tradicionalmente, difundiu-se que castrar cadelas precocemente, antes do primeiro cio, reduziria de forma muito acentuada o risco de tumores mamários ao longo da vida. No entanto, revisões sistemáticas mais recentes apontam que a qualidade das evidências é variável e, em muitos casos, fraca, sendo difícil quantificar com precisão esse benefício. (inFOCUS)
Ainda assim:
- Diretrizes atuais reconhecem que a castração parece reduzir o risco de neoplasias mamárias em cadelas, embora a magnitude e a influência da idade da castração sejam temas de debate. (Wiley Online Library)
- Nas gatas, a castração também está associada à diminuição de tumores mamários, que em felinos tendem a ser mais agressivos. (PremieRpet)
Por isso, a decisão sobre quando castrar uma fêmea deve considerar o equilíbrio entre possível proteção tumoral, riscos ortopédicos, obesidade e outras doenças.
3. Aumento da longevidade média
Estudos populacionais indicam que animais castrados, em especial fêmeas, tendem a viver mais tempo. Alguns motivos prováveis: (Humane World for Animals)
- Menor risco de doenças reprodutivas graves (como piometra).
- Menor tendência a fugir em busca de parceiros, reduzindo acidentes, brigas e exposição a doenças infecciosas.
- Maior controle populacional e, consequentemente, menos abandono e eutanásia por superlotação.

Principais riscos e efeitos colaterais em saúde
Apesar de amplamente utilizados, os procedimentos de castração não são isentos de desvantagens. Revisões científicas sobre cães e gatos destacam pontos que devem ser discutidos com o tutor: (PremieRpet)
1. Obesidade e alterações metabólicas
Animais castrados têm maior tendência ao ganho de peso. Algumas razões:
- Redução da taxa metabólica basal.
- Aumento do apetite em muitos indivíduos.
- Menor nível de atividade em alguns animais após o procedimento.
Estudos e diretrizes reforçam que o ganho de peso não é inevitável, mas é muito mais provável se não houver ajuste da dieta e incentivo à atividade física. (PremieRpet)
2. Doenças ortopédicas e articulares (principalmente em cães)
Pesquisas com determinadas raças de cães, especialmente de grande porte, sugerem que a castração precoce pode aumentar o risco de: (AAHA)
- Ruptura de ligamento cruzado cranial.
- Displasias e outras doenças articulares.
- Alguns tumores ósseos em determinadas combinações de raça e idade.
Esses achados levaram organizações como a AAHA a recomendar, por exemplo:
- Cães de pequeno porte: castração em torno de 5–6 meses.
- Cães de grande porte: considerar castração entre 9 e 15 meses, após o fim do crescimento ósseo, individualizando por raça. (AAHA)
3. Tumores que podem ser mais frequentes em castrados
Alguns trabalhos epidemiológicos sugerem aumento de risco, em determinados contextos, de: (Cab Digital Library)
- Hemangiossarcoma em certas raças.
- Linfoma e outros tumores específicos, dependendo de sexo, idade e raça.
É importante reforçar que esses dados não significam que a castração “cause câncer”, mas que podem existir associações em alguns grupos, exigindo uma avaliação personalizada.
4. Outras alterações possíveis
- Incontinência urinária em cadelas castradas, sobretudo de porte grande, é descrita em estudos, embora nem todos os animais sejam afetados. (Magonline Library)
- Mudanças em densidade óssea, composição corporal e possivelmente alguns aspectos cognitivos em fêmeas, de acordo com pesquisas experimentais. (PremieRpet)

Efeitos da castração sobre o comportamento
1. Em cães
A relação entre castração e comportamento é complexa. Revisões e artigos recentes mostram resultados variáveis: (PMC)
Comportamentos que podem melhorar em alguns cães:
- Marcação urinária com motivação sexual.
- Tentativas de monta em outros animais ou pessoas motivadas por hormônios sexuais.
- Fuga/errância em busca de fêmeas no cio.
- Comportamentos associados à reprodução (competição por fêmeas, brigas específicas de machos inteiros).
Comportamentos com evidência inconsistente:
Estudos apontam que problemas mais amplos, como agressividade generalizada, medo, ansiedade, hiperatividade ou reatividade a estranhos, nem sempre melhoram com a castração e, em alguns casos, podem até permanecer iguais ou piorar, dependendo do indivíduo e do ambiente. (Magonline Library)
Por isso, especialistas em comportamento ressaltam que a castração não deve ser vista como solução única para problemas comportamentais, e sim como parte de um plano que inclui treinamento, socialização e, quando necessário, acompanhamento de um médico-veterinário comportamentalista.
2. Em gatos
Nos gatos, as mudanças de comportamento relacionadas à castração são mais consistentes na literatura: (icatcare.org)
Benefícios comportamentais comuns:
- Redução importante de marcação urinária (spraying) em machos.
- Menos fugas e errância em busca de parceiros.
- Diminuição de brigas entre machos, o que também reduz o risco de ferimentos e doenças infecciosas.
- Nas fêmeas, desaparecem os comportamentos típicos do cio, como vocalização intensa, inquietação e agitação.
Essas mudanças ajudam a melhorar o bem-estar do animal e da família, além de diminuir riscos de abandono relacionados a problemas comportamentais.
Impactos na qualidade de vida e na relação tutor–animal
Organizações de proteção animal e entidades veterinárias destacam que, quando bem indicada, a castração pode: (Humane World for Animals)
- Reduzir o número de ninhadas indesejadas, que muitas vezes resultam em abandono.
- Diminuir comportamentos que colocam o animal em risco (fugas, brigas, acidentes).
- Facilitar o manejo em casa, com menor estresse para tutores e para o próprio animal.
- Aumentar a probabilidade de permanência do animal no lar ao longo da vida, evitando devoluções e eutanásias por questões de comportamento.
Ao mesmo tempo, os tutores precisam estar cientes da necessidade de controle de peso, enriquecimento ambiental e acompanhamento veterinário periódico, para prevenir obesidade e outros efeitos indesejados.
Quando castrar? A importância da decisão individualizada
Diretrizes atuais de entidades como WSAVA, AAHA, AVMA e sociedades europeias convergem em um ponto: não há uma única idade “ideal” que sirva para todos os animais. (WSAVA)
Alguns exemplos de recomendações gerais (que sempre devem ser ajustadas caso a caso):
- Cães de pequeno porte: muitas diretrizes sugerem castração por volta de 5–6 meses, se não houver contraindicações. (AAHA)
- Cães de grande porte: pode ser benéfico aguardar até o fim do crescimento ósseo (aprox. 9–15 meses), devido a possíveis riscos ortopédicos associados à castração muito precoce. (AAHA)
- Gatos (machos e fêmeas): a castração pré-puberal, por volta de 4 meses ou até antes, é amplamente aceita como segura e eficaz para controle populacional e redução de problemas comportamentais. (icatcare.org)
Além da idade, entram na avaliação:
- Raça e porte (especialmente em cães).
- Condição corporal e risco de obesidade.
- Presença de doenças pré-existentes.
- Ambiente em que o animal vive (apenas dentro de casa, acesso à rua, convivência com outros animais inteiros etc.).
- Objetivos do tutor (desejo ou não de reprodução, manejo de comportamento, participação em esportes e atividades específicas).
Castração não cirúrgica e alternativas
As novas diretrizes internacionais também discutem opções não cirúrgicas ou cirúrgicas sem retirada de gônadas (como vasectomia e técnicas que preservam ovários em fêmeas), em desenvolvimento ou uso limitado em alguns países. Essas alternativas visam controlar a reprodução mantendo, parcial ou totalmente, a produção hormonal. (WSAVA)
No entanto:
- A disponibilidade ainda é restrita em muitos locais.
- Os efeitos de longo prazo na saúde e no comportamento continuam sendo estudados.
- Em geral, a castração cirúrgica tradicional ainda é a técnica mais utilizada e acessível.
O papel do médico-veterinário
Frente a tantos fatores, o médico-veterinário é a melhor fonte de orientação para o tutor. As principais entidades veterinárias, como AVMA, WSAVA e AAHA, recomendam que a indicação de castração seja resultado de uma avaliação clínica individual, e não apenas de uma regra fixa para todos os animais. (WSAVA)
Na consulta, o profissional irá:
- Avaliar o estado geral de saúde do animal.
- Discutir riscos e benefícios específicos para aquela espécie, raça, idade e rotina.
- Orientar sobre preparo pré-operatório e cuidados pós-operatórios.
- Planear manejo nutricional e de atividade física após a castração, para evitar ganho de peso excessivo.
Conclusão
A castração tem impactos profundos na saúde e no comportamento de cães e gatos. Entre os benefícios, destacam-se a prevenção de doenças reprodutivas graves, possível redução de alguns tumores, aumento da longevidade média, diminuição de comportamentos de risco e contribuição importante para o controle populacional.
Por outro lado, existem riscos e efeitos colaterais relevantes, como maior predisposição à obesidade, possíveis alterações ortopédicas em certas raças de cães, além de associações com alguns tipos de tumores em contextos específicos. Em comportamento, a castração tende a trazer benefícios mais claros para gatos e para comportamentos diretamente ligados aos hormônios sexuais, mas não substitui um bom manejo comportamental.
Por isso, a decisão de castrar – e de quando castrar – deve ser tomada em parceria com o médico-veterinário, com base em evidências científicas atualizadas e nas características individuais de cada animal.


